Gramado – O começo do fim

17/09/26

Um templo da pré-história 

Um galpão do oeste americano 

Uma gaiola das loucas

O samba do crioulo doido


Há dúvidas sobre como se formou a ideia de uma imagem arquitetônica predominante na cidade, mas, aquela casa que foi do major e a casinha da curva, são bons indicadores de como se pensava nos primórdios do domínio da civilização euro-asiática nessa “última curva da montanha”, como os kaaingangue chamavam essas paragens que os lusitanos chamaram de Gramado.


Com pouco mais de um século de dominação, as culturas europeias alteraram drasticamente a paisagem e o turismo consolidou uma nova silhueta nos últimos 40 anos: daquelas casinhas modestas de pedra embaixo, madeira no meio e telhados de barro no cume, edifícios que vão do saudosistas barroco ao futurista bauhaus fizeram ficar parecida com um parque temático americano.


De repente, mais recentemente, nos 5 anos pré-pandemia e além, surgiram duas variáveis arquitetônicas, se é que se pode dizer que há arquitetura nisso, que misturam templos pré-históricos, casarões do oeste norte-americano com algumas instalações que poderiam ser enquadradas como mix  nos estilos “La cage aux folles” com “samba do crioulo-doido”, com as licenças de Jean Poiret e Stanislaw Ponte Preta..


Se o gosto da fase milenial era refinado, agradável a olhos normais e atrativo pela plástica e pelo conforto, os novox prometem deixar a terra arrasada e determinar o fim de uma era. 


Gramado poderá em menos de 30 anos – o tempo de uma pinha de Araucária brotar e deitar a primeira cachopa – ser transformada em uma Acapulco ou uma Faro, onde existem mais quartos de hotéis em ruínas, mais lojas abandonadas e casas vazias, que habitantes renitentes e teimosos, que vertem lágrimas de saudade dos tempos áureos e rilham os dentes de raiva dos seus heróis criativos,  que os enganaram com promessa de riqueza e entregaram farrapos e tristeza.


Parecerá cenas do filme “A oeste do fim do mundo”, aquele que ganhou 4 kikitos no Festival de Cinema de 2014, coincidentemente, o ano em que nasceu a primeira trapizonga na cidade, o que pode ter marcado o começo do seu fim.

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