Cenário da Hotelaria Gaúcha em 2025
15-03-2025 – 1ª edição
2024 – Um ano para ser lembrado e não repetido
Hotelaria
Em 2024 a hotelaria gaúcha remou em um mar revolto, considerando que apenas meio ano realmente existiu, o resto do tempo foi usado para remover lama e correr atrás de estragos provocados pela tragédia climática.
Mobilidade
Mesmo que a enchente na serra e nos vales tenha durado apenas 3 dias e a cheia na região metropolitana da capital tenha paralisado 30 cidades por um mês, só em dezembro foi aberta a principal pista de pousos & decolagens e foi reinaugurada a primeira ponte dorsal.
Não só por isso, mas, também em função disso, algumas inaugurações foram postergadas e apenas um grande hotel foi aberto em 2024, o Plaza na REgi!ao dos Vinhedos. As bandeiras dançaram ao sabor do vento e mais de meia centena de pequenos hotéis e pousadas fecharam, trocaram de proprietários e mudaram de objeto do negócio.
De positivo, ocorreu o re-equipamento emergencial (que vai ficar e jamais seria feito se não tivesse ocorrido um desastre) de 3 aeroportos: Caxias do Sul, Torres e Canela, que agora estão aptos para vôos comerciais diurnos e noturnos, para aeronaves de grande e médio portes com segurança, para serem alternativas viáveis para o caso de ocorrer outro acidente climático.
Aeroportos do RS em números:
7 aeroportos no estado recebem voos comerias regulares: Porto Alegre, Caxias do Sul, Passo Fundo, Santo Ângelo, Pelotas, Uruguaiana e Santa Maria. Todos eles embarcaram e desembarcaram 4,4 milhões, uma diferença de menos de metade do fluxo normal. Então, para onde foram os passageiros nesses 8 meses em que estradas e aeroportos ficaram com problemas? Eles desembarcaram em Florianópolis e Jaguaruna. O Rio Grande do Sul não tem alternativa com menos de 300 km de distância de Porto Alegre, um erro estratégico infantil, cometido por governantes que só pensam em grão, bife e parafuso.
Promessa
Estes aeroportos ganharam carga extra de passageiros e cargas, mesmo estando pouco preparados para isso. A catástrofe climática escancarou a deficiência que era discutida pelos mais esclarecidos no setor de mobilidade humana: o estado tinha infra-estrutura deficiente nos modais mais estratégicos, tanto pelo ar, como por estradas de rodagem.Transporte aquaviário tem abundância de água e vias navegáveis, mas, só é utilizado com eficiência para transportar combustível fóssil e o que existe de transporte de pessoas se concentram em circuitos turísticos e uma travessia do estuário do Rio Guaiba. Ferrovias praticamente inexistem no território e o que se move de trem são três circuitos de trens turísticos.
Depois do desastre de proporções babilônicas, com subidas e descidas, falácias e sofismas, proferidas por influencers, políticos, técnicos, cientistas, oportunistas, demagogos e corruptos, não houve consenso sobre o que deverá ser feito para corrigir o presente para que não se repita o mesmo no futuro. Sobrou apenas a promessa do governo federal de iniciar as obras de um Aeroporto Alternativo na localidade de Vila Oliva, na região dos campos de cima da serra, no município de Caxias do Sul, distante 130 km da capital e 36 km de Gramado.
Como “Vila Oliva” é uma promessa com mais de meio século, que nunca saiu do papel ou dos gabinetes públicos e privados, poucos estão acreditando que haverá alguma movimentação, sendo o problema esquecido, pelo menos até a próxima enchente. Na imagem ao lado, o terreno destinado ao Aeroporto, que tem R$ 170 milhões prometido para iniciar a construção, ainda sem cronograma.
Pólos Turísticos do Rio Grande do Sul
O Rio Grande do Sul tem 4 Pólos de recepção de visitantes:
Porto Alegre:
Pólo de Negócios, junto com sua Região Metropolitana, onde se concentram + de 50% dos negócios e quase 50% da população do estado. É o principal e predominante pólo de negócios do estado. O turismo de Porto Alegre atrai um contingente muito grande para outras atividades além do lazer.
Capão da Canoa:
Pólo de Turismo de Sol & Mar, tem como principal atrativo o Verão. É a principal cidade da Costa Leste do RS, sendo o principal receptor de turistas de férias de verão, quando juntamente com outras 21 cidades, recebe + de 1 milhão de gaúchos e 90% dos turistas estrangeiros que frequentam anualmente as praias gauchas. Nesta região, prevalece o aluguel por aplicativos e por imobiliária, fazendo a hotelaria ter poucos relevância.
Bento Gonçalves:
Situada na Região Metropolitana da Serra Gaucha, tem sua economia fortemente impactada pelo turismo cultural baseado nas experiências da cultura italiana e no enoturismo. Além do Turismo, Bento Gonçalves ostenta alguns indicadores, como o fato de ser o maior IDH – Índice de Desenvolvimento Humano – do estado e também como pólo madeiro e vitivinicultor.
Gramado:
Pólo de um roteiro turístico centrado na cultura gastronômica, engloba 3 outras cidades, Canela, Nova Petropolis e São Francisco de Paula, cada uma delas com características bem definidas. Gramado é marca intuitiva registrada de qualidade em turismo, eventos e diversões.
Sobre Gramado:
O Pólo Gramado sempre recebe atenção especial quando se discorre sobre turismo no Rio Grande do Sul, por ser seu maior atrativo e maior lead de propaganda externa, por concentrar o maior volume de oferta tanto hoteleira como de atrativos e por ter firmado imagem diferenciada de modo de vida e de prestação de serviços.
Turismo inexiste sem meios de hospedagem, portanto, quando focamos na hotelaria como meio, estamos considerando que tudo o que se refere a pessoas dormindo fora de casa, é turismo. O que varia são as outras variáveis, como:
Tempo de permanência:
Os turistas de Gramado atualmente precisam ser divididos em 3 tipos: os hospedes, os cotistas e os benebistas: turistas ficam entre 3 e 4 noites, cotistas ficam entre 4 e 7 noites. Benebista ainda é um mistério em termos de comportamento, mesmo sendo mais frequentes nos finais de semana, são confundidos com os turistas-proprietários.
Formato do grupo
A participação de turistas individuais é mais frequente nos eventos técnicos e profissionais, como Festuris, Summit e Congressos Científicos, os quais representaram em torno de 15% do movimento turístico da cidade. Os eventos culturais representam 25% do movimento turístico da cidade e sua maior expressão é o Natal-Luz.
Atividades e Recorrência
A maioria declarou que foi a Gramado PASSEAR, mesmo que houvesse uma atividade secundária, como o fato de ela ou o cônjuge participar de um evento ou negociar algum produto ou serviço. Foram ouvidos 860 turistas durante os 12 meses do ano de 2024 e 1/3 deles indicaram que são turistas recorrentes, que já estiveram na cidade como turistas por mais de 2 vezes. Frequentadores da Gastronomia vindos das duas Regiões Metropolitanas, do Natal-Luz e do Festuris, criaram esta cifra, que é marcante nos últimos 23 anos, que é o tempo em que o IN-PACT faz essa pesquisa.
Nos eventos de todas as vertentes, essa recorrência sobe de forma incisiva, chegaram a 5 em cada 10 turistas presentes nos eventos. No segmento de turistas cotistas, oriundos do “turismo de tempo compartilhado”, os números ainda não são um espelho para refletir ou desenhar o futuro, por ser uma presença de pouco tempo, uma vez que ela se iniciou em 2021. Como o usuário da cota não é, necessariamente o seu proprietário, uma vez de ele pode ser um participando um dos centenas de “clubes de fidelidade” como RCI, ou comprador de diárias via anúncios em redes sociais,
Despesa Média/Dia
Hotéis e Pousadas
O TM – Ticket Médio Diário, ou ADR – Average Daly Rate – é calculado pela somatória dos gastos em 5 segmentos de cada destino. Neste quesito encontra=se uma diferença gritante entre os turistas que se hospedam em meios de hospedagem regulares e os que se hospedam em quartos, casas e apartamentos. Na hotelaria regular, o ADR girou em torno de R$ 874,00, distribuído da seguinte forma:
APP
Quando se mede a ADR dos turistas que se hospedam por aplicativos ou por imobiliárias, a grade se reconfigura e a tabela fica da seguinte maneira
A despesa média diária fica em torno de R$ 317.00. Os turistas de aplicativos frequentam mais os supermercados e menos os restaurantes, pagam ingressos apenas ocasionalmente.
Hóspedes por aplicativos ou imobiliárias, geram contribuições tributárias insignificantes para o município. Ainda se discute a segurança deste hóspede a sua contribuição para a qualidade do destino
Deslocamentos
Os deslocamentos para contar como despesa local, são considerados a partir do aeroporto ou da última praça de pedágio, em forma de aplicativos, combustíveis, aluguel de veículo, bilhetes de ônibus, pedágio e estacionamentos.
Refeições
São considerados os gastos realizados em restaurantes, fora os gastos em resteatros, em que se confundem os valores de alimentação com espetáculos. Nisso foi considerado que é um ingresso com alimentação incluída, da mesma forma ocorre nas degustações pagas em vinícolas e outros parques que alimentam os turistas.
Ingresos
São os valores gastos em Parques Temáticos, Shows, Resteatros e Sítios de Lazer.
Compras no Comércio
Em Gramado, Canela, Nova Petrópolis e São Chico, mais de 2 mil pontos de vendas estão distribuídos pelas Avenidas, Ruas, Atrativos e Hoteis, dispondo de bens industrializados para venda direta. Essa fatia dos gastos é muito significativa, ocupa muitas pessoas, recolhe as contribuições mais significativas em tributos estaduais e contribuem com o processo de fidelização e de propaganda do destino.
As motivações da viagem:
Neste levantamento em nível de estado, realizado desde 2016, alguns detalhes passaram despercebidos e algumas respostas se confundem, pois, existem muitos casos – e na são poucos – onde o turista exercita mais de uma motivação na mesma viagem, visitando mais de um destino, de forma planejada ou ocasional. Assim, um paciente oriundo do Paraná esteve em tratamento cardíaco em Porto Alegre e antes de seu retorno, esteve por dois dias em Gramado. A contagem deste turista é dúbia em 3 parâmetros: na motivação, na origem e no destino.
No segmento “Saúde” não se incluem profissionais da saúde, como Médicos e Enfermeiros, que se qualificam como “Trabalho Técnico/Cientifico”, portanto estão incluídos em “Negócios”.
As visitas familiares estão incluídas no segmento “Lazer” e em “Negócios” se inclui trabalho, vendas, assistência técnica, politica, tripulações e segurança, entre outros.
Qualidade
No gráfico de Satisfação do Turista realizado no embarque no Aeroporto Salgado Filho e em duas paradas de Pedágios, os turistas deram as seguintes notas (10 para excelente e 0 para trágico) para os quesitos apresentados na tabela abaixo ao lado.
Esta grade representa turistas dos 4 pólos turísticos do estado, o que não invalida medidas de outros locais com menos movimento, porém, com a mesma importância. Até porque, foram coletadas opiniões apenas no território que aparece no mapa e ele não representa todo o estado.
Mesmo com as vicissitudes do ano de 2024, o gráfico não sofre grandes variações em relação aos anos anteriores, no entanto, foi sensível a pedra de qualidade do quesito “Atendimento” em Gramado e da Segurança em Porto Alegre e Capão da Canoa.
O perrengue:
Para alguns itens foram anotadas observações nas quais o turista fazia questão de registrar. Eis algumas delas:
Captadores mal educados:
“Impossível caminhar dez metros sem ser agarrado por um monstro do tipo “a casa mal assombrada” do play center. Apavorante“
Assedio para vender comida,
“Caminhar e passar em frente a um restaurante (sempre tem um restaurante a cada 10 metros), se o vendedor vestido de garçom não te atacar, depois de um tempo tu começa a se perguntar se não tem nada errado contigo”.
Ingresso falso
“Comprei ingresso para o natal luz e tive que olhar da rua, com a sorte que o policial queria saber de quem eu havia comprado. Entreguei por escrito com BO”.
Guia de Loja:
“Guia de Turismo gasta muito tempo apresentando lojas ao invés de levar em atrativos”
Fotógrafo insistente
“Se não me pagar, eu estrago sua foto”.
Trânsito congestionado
“Só no segundo dia descobri que indo a pé era mais rápido”.
O paraíso:
Por outro lado também os elogios foram muitos para várias aquisições:
Os parques
que receberam referencias elogiosas, algumas ufanistas e outras como inesquecíveis. Não apareceram reclamações sobre os preços:
- Floribal de Canela
- Vila da Mônica de Gramado
- Minimundo de Gramado
- Maria Fumaça de Bento Gonçalves
- Hector de Gramado
- Marina Park de Capão da Canoa
Os restaurantes
mais citados, com ênfase maior para originalidade e até pelos ambientes, vistas panorâmicas e musicas:
- Di Paolo de Bento Gonçalves
- Nono Mio de Gramado
- Neni de Gramado
- Divino de Gramado
- 20barra9 de Porto Alegre
- Maquina da Casota Leste
Os hotéis
referências, com respeito à temática, à cultura, aos preços e serviços diferenciados.
- Origens de Gramado
- Cercano de Gramado
- Criamigos de Gramado
- Praça da Matriz de Porto Alegre
- Doubletree by Hilton de Porto Alegre
- Dallonder de Bento Gonçalves
- Villa Michelon de Bento Gonçalves
Catástrofe
Gramado, por ser o Pólo de turismo número 1, ganha atenção especial, pois, sua economia depende de acessos, muito além de energia e matéria prima. Como muito mais de metade dos seus hóspedes são originados no Brasil, os aeroportos são fundamentais para esta operação. E isso praticamente quebrou a economia do Pólo Gramado, que viveu metade do ano consumindo seus estoques de recursos e também da ajuda federal, que variou entre 160 e 400 milhões de Reais, dependendo de como se faz a conta, incluindo aportes do governo federal a fundo perdido e empréstimos facilitados.
Esse isolamento e essa semi-paralisia de 8 meses transformou o estado em um campo de refugiados e sua economia foi salva pelo despejo de recursos federais que permitiu a manutenção de parte dos empregos e a reabertura de negócios, porém, algumas empresas não resistiram e não reabriram, dentre elas, alguns pequenos meios de hospedagem. Neste meio tempo, alguns hotéis, antes condenados, ganharam novos gestores e isso compensou os fechamentos.
A crise também gerou oportunidades, que ajudaram no processo de concentração de renda, pois, algumas empresas automatizaram seus negócios, reduziram serviços e aumentaram preços. A aceleração dos processos de robotização permitiu ganhos de produtividade em alguns setores. Isso deve aparecer nas medidas de produção do estado, levantados pelo IBGE. O que precisa ser observado é o fato de o PIB ser medida de produção, não de riqueza ou de qualidade de vida. A qualidade de vida despencou, a educação sofreu severos revezes e as ações para a recuperação não serão sentidas em curto prazo, com muitas estradas não recuperadas, com obras atrasadas, com desvios mantidos e com a segurança comprometida.
Efeitos Co-Laterais
Além de ter ganho duas pistas de pouso por causa da catástrofe, o estado também viu algumas movimentações de oportunidades na hotelaria. Ela evoluiu com algumas aberturas e uma sensível dança de bandeiras e muitas operações de aluguel de pousadas e hotéis. Não foi noticiado nenhuma venda de grande porte.
Na movimentação ganhou destaque a abertura do Plaza no Vale dos Vinhedos, a reabertura do tradicional City Hotel de Porto Alegre, o embandeiramento do Daara de Gramado, com a bandeira Transamérica Fit Collection, pela AHI – Atlântica Hotels International. Convém lembrar que a AHI já se faz presente em Porto Alegre com as bandeiras Quality, Transamerica Fit Collection e Double Tree by Hilton.
Em termos de fechamento de 2024: o Turismo trabalhou com metade de seu publico e exercitou metade de sua capacidade. As empresas sobreviveram, mas, empobreceram.
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