Hotelaria Distribuída – um novo desafio para 2026

As UHD – Unidade Habitacional Distribuída – estão deixando o mercado do turismo – do lado da oferta – sem dormir direito.

Sai de casa às seis e dei um passeio no bosque antes que seu lobo viesse.

Em seguida peguei meu celular e minha agenda de mão e fui tomar café num hotel qualquer. 

Ouvi certa vez de um cara num boteco do Bairro Floresta, que quando alguém vê uma pessoa com agenda na mão e tomado nota, pensa duas coisas:

⁃ Ou é fiscal 

⁃ Ou é da polícia

Duas quadras depois da minha casa, numa rua florida e sombreada, assisto uma cena interessante: 7 pessoas, dois casais, dois jovens e uma criança de uns 7 ou 8, em frente a um prédio que todos da cidade sempre tinham como “elegante”, discutiam alguma coisa.

Cheguei perto e os cumprimentei.


– não queremos comprar cota de férias – esbravejou um dos homens.

Tive que explicar, mostrar o crachá que eu não era captador de incautos… ops… clientes e sim, um pesquisador e queria fazer 4 perguntas.


– Ah, bom, então, pode perguntar.

Assim fiquei sabendo que eles estavam de férias vindos do interior de São Paulo, pagaram 14 mil reais por 7 diárias em um apertamento de três quartos (o do casal, o de hóspede e o da empregada e se amontoaram lá e estavam discutindo com duas vertentes de pensamento:

Preço da comida e da limpeza.

O homem estava achando os preços dos restaurante “caro” e a economia fica por conta de comprarem mantimentos no Carrefour e fazer a comida no apartamento, pagando uma taxa de gás, pro zelador do prédio abrir o registro. (O Ze-Lador, também zela esse apartamento que pertence a um político que o aluga pelo AirBnB).


A limpeza, o mesmo que cuida havia oferecido uma limpeza diária por R$ 250,00, pois, a geral, depois da saída, de R$ 500,00 já estava cobrada na reserva. 

Férias ou trabalho?

Uma das esposas estava indignada, pois, para economizar as faxinas, ela virou “a doméstica da viagem”, fazendo limpeza e comida todos os dias, desde o dia 21, quando aqui chegaram, vindos em dois bons carros, depois de dois dias de viagem. 

Perguntei se, com esses valores, eles não pagariam um bom hotel ou pousada com café, limpeza e sorrisos incluídos no valor do pernoite.


– Não! O que achamos mais em conta dava mais de 20 mil.


Eu não discuti, pois, não seria sensato nem educado, mas cismei de averiguar e isso não é verdade. Pelo menos, nos 4 lugares que verifiquei em seguida, logo depois do café, daria menos de 14 mil. Muito menos.

Então o que faltou?

Faltou o “Movimento Hospedar RS”.

Unidade Habitacional Distribuída 

A hospedagem disfarçada em nomes bonitinhos como STR, Aluguel de Temporada, B&B e BnB, é um novo concorrente que veio substituir as imobiliárias que alugavam apartamentos e quartos nas praias do mundo, só que agora, com contrato tácito e expresso, assinado eletronicamente e acessível pelas pontas de dois dedos. 

A hotelaria modelo chinês sentiu o baque. Essa hotelaria que já tem mais de 20 mil anos, com seu estilo militar/religioso, ganhou um concorrente que faz a mesma coisa de um jeito diferente e bagunçou o mercado, do mesmo jeito que tudo quanto é aplicativo bagunçou os negócios mais antigos, desde o caminhão do gás até os taxis. E não vai parar por aí. Os 2 milhões de motoqueiros e bikeiros que fazem a farra do I-Food, logo vai ser substituído por drones e acho que minha pizza vai chegar mais rápido.

Voltando à vaca fria da hotelaria. 

Em paralelo ao surto de apartamentos para ser UHD, chegaram os fracionados e, em alguns casos entre os “operadores dos caravançarai”, alguns desistiram, outros arrancaram os cabelos e os demais pediram para o governo cobrar impostos.

Günther Staub, o publicitário que foi secretário estadual de turismo no governo Britto no milênio passado, dizia que entre os concorrentes da hotelaria de lazer, os mais perniciosos eram os vendedores de eletrodomésticos “como Colombo e Arno”, pois, segundo ele “as viagens de lazer eram presentes, e estes poderia ser uma viagem, um brinquedo ou uma utilidade doméstica. Então, os presentes poderiam ser uma bela TV, um freezer ou um sofá que vibra… ou uma viagem de recreio”. Ele não achava tão problemática a concorrência entre destinos turísticos e entre as marcas hoteleiras, que estavam entrando no estado de forma arrasadora (em 1998, era o inimigo da vez).

Como não estava acostumada com concorrência, pelo menos a aparente, a hotelaria tradicional começou a pedir para o governo cobrar impostos. Como não adiantou, alguns destinos insistiram para os governos (librais, conservadores ou social-democratas) proibir as construções de novos hotéis. Vi isso em Pipa, Gramado, Porto Alegre, Florianópolis, Guarapari, Fortaleza e mais alguns lugares. Alguns prefeitos realmente o fizeram, mas, os “residenciais” floresceram e a emenda ficou pior que o soneto.

Aqui entre nós 

Como existem mais de 15 mil UHD no Pólo Gramado, vendidas pelas 3 maiores plataformas de distribuição do mundo, a coisa ficou feia. 

Em 2026, como será a vida de todos estes atores, nesta novela sem fim?


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