O trabalho se desregulou definitivamente com a profusão das MEI e da informalidade absoluta. Isso não é fenômeno apenas brasiliano, é algo que muitos países tentam resolver, mas, copiar soluções ou adaptar situações, não muda o mundo
As microempresas individuais, aquela do 1+1 (1 dono e até 1 empregado), abocanharam os serviços e quase aposentaram as cozinhas, substituindo o fogão e as panelas pelas bykes e motos. Os garçons, os jardineiros e as domésticas do tempo do aplicativo, caíram na informalidade total: recebem em dinheiro no fim da tarefa e o recibo é um aperto de mãos. Quando perguntado por que ser informal, fugindo da CLT e da pejotização, a resposta vem como se saísse da boca de um doutorando em YouTube: “sou empreendedor, não vou sustentar governo corrupto e vagabundo”.
Ele se esquece o preço do convívio em sociedade com o mínimo de civilização e sem considerar o “efeito reciprocidade”:
- ao ser roubado por um ladrãozinho, pivete ou punguista, ele vai pensar em primeiro lugar, em chamar a polícia
- Ao cair da moto, será socorrido pelo SAMU ou correrá para um posto de saúde ou para o pronto-socorro
- Se esquece que o filho está na creche da prefeitura,
- A esposa está grávida sendo tratada no SUS e receberá o auxílio-maternidade
- Ela também não ficará 5 meses de licença maternidade paga pelo governo, caso nao tenha uma assinatura na carteira azul
- Ele irá ao hospital ver o rebento entre uma entrega de pizza é uma passada no posto de combustível, sem a licença legal
- Em dezembro não terá o décimo terceiro
- Férias serão de dois dias sem remuneração
- FGTS será uma ficção para ele
É a precarização sem educação financeira.
A lei da selva nos negócios não produz riqueza, apenas a concentra em poucas mãos. Se produzisse, países de melhor renda e qualidade de vida não seriam tão regulamentados. PIB, IDH, FIB e GINI são siglas medidas a partir de marcos regulatórios e não por quantidades de gente ou produto.
“A porta só abre por dentro”, então, só haverá progresso, tanto para as empresas, para os trabalhadores e para o estado, quando a Consolidação das Leis Trabalhistas for extinta e se criar uma lei nova, que elimine a figura do “grande pai”, do “coitadinho” e do “estado protetor”.
Em um Workshop da Control Data Corporation no Hawai, na d
Cada de 70 do século passado, foram lançadas duas perguntas para a plateia:
- What’s up?
- What if?
Na primeira questão, a platéia ficava sabendo o que estava rolando na área e na segunda, se levantava as hipóteses do que aconteceria em cada cenário hipotético, principalmente aquelas ocorrências que estavam fora do controle e do comando do sujeito afetado. Aqui entre nós, as respostas:
O que está acontecendo?
- está rolando uma rebeldia com o descontentamento e a causa principal é que os cidadãos estudaram mais e tornaram-se mais questionadores. As leis não foram atualizadas e as profissões nascem e morrem em velocidade maior que as pessoas nascem e crescem. Por isso, em muitos casos, quando o filho se forma na universidade, a profissão do pai já desapareceu. Então…
O que aconteceria se:
- Os salários deixassem de ser mensais e fossem semanais, pagos a cada quinzena?
- As férias fossem quinzenais a cada semestre?
- A gestão dos encargos sociais do trabalhador fosse gerida por ele mesmo e não mais pela empresa?
- Se a automação permitisse que os encargos, tributos, taxas e contribuições fossem automatizadas?
Atenção para as respostas:
Podem ser buscadas em dados abertos e na realidade nua e crua que está fazendo a mão-de-obra operária ficar escassa, os salários serem aviltados, a segurança previdenciária ser tão ameaçada e os benefícios sociais sejam insuficientes.
- Será um caos se alguém disser que o décimo terceiro desaparecerá.
- Será uma guerra se alguém disser que cada um poderá comprar ou vender seus períodos de férias guardadas as proporções de tempo e saúde.
- Será uma guerra se alguém disser que as aposentadorias serão calculadas pela esperança de vida calculada a cada ano.
- Será “o fim do Brasil” se for permitido que o trabalho seja remoto.
- Será “o fim da picada” se for reformada a escala 6/1 de trabalho, uma prática que vem desde a da idade do bronze.
O passado é um espelho:
Também se ouviu que “isso vai acabar com o Brasil”, se passasse:
- o horário de trabalho de 1/3 do dia,
- o voto das mulheres,
- o voto dos analfabetos,
- o salário mínimo,
- o décimo terceiro salário,
- a mecanização do campo,
- a automação da indústria
- o bolsa-família,
- o SUS…
Tudo isso passou, o Brasil enriqueceu e os governos se esqueceram de avisar aos seus patrícios (se patrícios fossem) que a riqueza deveria ser melhor cuidada para ser percebida.
As reformas só serão possíveis se cada um sair de sua “caixinha do passado” e olhar o problema (e a solução) de outro ponto de vista. Então, em cima das duas questões do Hawai, “vamos destrancar a porta por dentro?”
Quem sabe assim, a definição de trabalho deixe de ser originado no TRIPALHO dos torturadores medievais e passe a ser olhado como a definição da física clássica, para medir “a energia necessária para mover qualquer coisa no mundo”.

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