Em pleno 30 de janeiro, um porto-alegrense desavisado foi a Gramado de manhã e voltou no começo da tarde, apavorado por ver tão pouco movimento. Gramado estaria tendo uma crise? Os turistas sumiram?
Ele me reportou suas constatações e eu fui procurar respostas para ele e deu nisso:
Minha correspondente chegou no mesmo dia em Gramado exatamente as 16 horas e foi ao primeiro hotel tomar um café antes de ir pra a casa locada pelo Booking. O hotel está lotado.
Ele me havia dito que fora ao restaurante tradicional da cidade, popular, servido por peso, só viu 4 pessoas comendo.
Ele não percebeu, mas, em Gramado e Canela o turismo mudou de padrão e de costume. De cada 10 carros, 7 são locados, de cada 10 turistas, 2 passam a noite em camas locadas por aplicativos de hospedagem.
Parece vazio, mas… ocorre que o turista sumiu da rua. Hotéis como Alpestre, Serrano, Golden, Buona Vitta, Bella Gramado, Pedras Altas, Whyndhan, Villa Bella, SKY e mais alguns, criaram jeitos de manter o hóspede dentro do hotel ou dentro de um dos 50 parques:
Comida, piscina, música e brinquedo.
Controle Remoto
A comida dos hotéis é melhor que a dos restaurantes de rua e bem mais barata, com piscina e funcionários para brincar com as crianças e para passear com os cachorros. Resultado: Gramado recebe 25 mil turistas por noite (turista é só quem se hospeda) na baixa temporada e 60 mil na alta e você não vê mais eles passeando na rua, pois, eles não “passeiam” mais pela cidade. Mas, a cidade está sempre movimentada.
Os meios de hospedagem de Gramado com operações profissionalizadas (mais de 70% da capacidade) têm suas sedes e seus comandos fora do Pólo Gramado, não querem porto-alegrenses, pois, esses gastam pouco e sofrem o efeito psicológico de o transporte custar menos que a entrada no parque. Gramado é uma “Barriga-de-Aluguel” dos fundos da Faria Laima.
TTC: Turismo de Tiro Curto:
Resta para os turistas gerados em origens distantes até 3 horas de distância terrestre, as pousadas que, como ganham bem nas duas altas temporadas (jun/jul e nov/dez), os donos (não em sua maioria) aproveitam o auge do verão gaúcho e vão passear: no último dia de janeiro, coincidentemente em uma manhã gélida e nublada, eu estava passeando pelos grupos de mensageiros, WhatsApp, Instagram e Facebook, onde encontrei 43 deles mandando fotos e vídeos: havia 3 famílias na Disney, 3 em Paris, 1 na Turquia, 2 em Israel, 2 na Inglaterra, 5 em Portugal, 4 na Alemanha, 3 na Itália, 6 no nordeste do Brasil, 9 em Santa Catarina, e 5 na Costa Leste Gaúcha. Para não me perder, guardei print das telas e fiz a lista dos nomes (para recordação) para ter base em estudos de cenário da EBH. Isso é um sinal que, em 4 meses, deu dinheiro suficiente para essas “viagens de estudo em família”.
E a quebradeira? A crise? O PT?
Mesmo assim, 50 pousadas estão reclamando da falta de turistas, das cobranças da corsan, da rge, do ECAD, dos golpes do PIX e fica parecendo que estão com problemas, 3 fecharam e em outras 7, os herdeiros querem desistir.
Na hotelaria, nos parques, nas lojas e nos restaurantes, estão sobrando vagas de trabalho, os governos (tanto o formal, aquele que arrecada tributos e aquele que realmente manda na cidade, que emprega e vende móveis e imóveis) não farão nem deixarão fazer casas populares na cidade para não empobrece-lá nos indicadores do IBGE, trazendo operários de outras cidades vizinhas, a cidade arrecada mais (pois os tributos serão calculados no local do consumo e não no local da produção) e os custos sociais, como educação, saúde e segurança, ficam na conta do prefeito onde os operários residem.
Do Lado Social:
Gramado está praticando a seguinte teoria:
“O importante é fazer. Estudar no nível superior deveria ser só para uma pequena elite”, segundo o ex-comunista Aldo Rabelo.
Subsídios:
As prioridades e as preocupações são tratadas de forma diferentes: a administração municipal cortou o subsídio de estudantes universitários que frequentam as universidades localizadas nas cidades distantes até 60 km no vale dos sinos e, ao mesmo tempo, financia a empresa de transporte público da cidade. Isso mostra que o comando da parte tributária (os chefes da tribo), investem no presente, ao dar subsídios para o transporte, alivia a despesa das empresas que contratam esses operários, as mesmas empresas que tem suas sedes longe da cidade.
O comando de fato da região (representado pelas associações em forma de sindicato dos proprietários da cadeia produtiva do turismo – ACV – e das lideranças representantes das Empresas de Base Imobiliaria – EBI) está reclamando que falta mão-de-obra, mas, não aumenta salários, corta benefícios, faz economia reduzindo qualidade e não abre mão da margem financeira.
Farialimando a Hospitalidade:
Uma nova palavra passou a fazer parte do dia-a-dia de metade dos quartos ofertados para “viajantes de ida e volta” que visitam o Pólo Gramado: DIVIDENDOS
Quarto de hotel não mais faz parte da cadeia da hospitalidade e sim da indústria de base imobiliária. Hotel não tem donos, tem investidores. Quando donos tinham a preocupação com o patrimônio, investidor pensa em retorno do investimento.
A concorrência
Junto com os 60 mil leitos em meios de hospedagem regulares dentro dos princípios legais da Hospitalidade, demonstrados pelos CNAE de “alojamento”, nas 2 cidades principais do Pólo Gramado, existem 14 mil camas sendo oferecidas nas plataformas tipo Charlie, Booking e AirBnB, além de agências locais que fazem aluguel de temporada, como UAU, Gramado Lodge, Recep-Gramado e LCW. O que me levou a esses números foi uma cooperativa, que ocupa 1.200 pessoas fazendo faxina, cortando grama, levando e buscando comida e vasilhame nos apartamentos e casas locadas. Essa modalidade tem diárias de R$ 50 (camas na Rua Nelson Dinnebier) até R$ 22.000 (casa no Planalto para até 20 pessoas onde rolam festas e o melhor poroduto vindo direto de Medejin).

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