Cada pancada empobrece e concentra mais a economia do turismo
Dados do IBGE revelam que durante a primeira onda da pandemia do Coronavírus, desde abril até junho de 2020, 716.372 empresas encerraram suas operações, sendo 99,8% delas de menor porte. Esse impacto resultou em uma perda expressiva de estoque de capital.
Na cadeia produtiva do turismo, onde se abrigam os hotéis, as pousadas, os restaurantes, os organizadores de eventos e as casas de diversão, 1,5 milhões de pequenos negócios desapareceram em 2 anos de pandemia e não retornaram definitivamente. Os profissionais com relação de trabalho formal e os empreendedores de pequenas empresas, após desalojados, trocaram de atividades ou se empregaram em grandes empresas sobreviventes.
Os negócios voltaram ao normal em 2022, mesmo que a pandemia tenha perdurado burocraticamente até abril de 2023, porém, ocorreu uma concentração brutal das atividades na hotelaria quando centenas de pequenos hotéis, pousadas e restaurantes desapareceram e para perceber isso basta observar a quantidade de novos endereços de grande porte sendo inaugurados durante e logo após a pandemia.
Quando o vírus desembarcou na China, a multipropriedade estava chegando na hotelaria brasiliana e 3 anos depois do fim da tragédia sanitária, a maior rede de resorts do país estava nas mãos da Faria Lima e em alguns destinos, o gráfico de oferta mostra a maior fatia distribuída em forma de cotas e não de pernoites. Em Gramado, Caldas Novas, Olímpia e muitas praias do nordeste a oferta de cotas e a quantidade de quartos em obras sinaliza que os fracionados não representam uma bolha e sim uma tendência.
Segundo um corretor imobiliário de alta performance neste mercado de frações, a maneira de construir diluindo o custo de construção em cotas, é irresistível no segmento de incorporação imobiliária para a hotelaria.
No Rio Grande do Sul, logo depois da pandemia do coronavírus que aleijou o turismo do estado, uma enchente “completou o serviço”, quando o que não foi destruído, perdeu qualidade de uma forma irrecuperável. A hotelaria de negócios sofreu economicamente com a perda dos clientes que não podiam viajar para o estado que havia perdido mais de mil km de estradas mais de uma centena de pontes e uma pista de aeroporto. O ano de 2024, teve menos de 6 meses de atividade normal e até o último dia de 2025, a economia do estado não havia recuperado sua saúde, viveu e continua vivendo de ajuda da união.
Os “bons números” são ilusórios, pois, as informações coletadas nas empresas não demonstram a abertura ou conexão com novos destinos, não apresenta um calendário com grandes eventos anunciados e os pequenos eventos rarearam. O número de visitantes chegando seja por estrada seja pelo ar, não se insinuam nem de perto aos números apurados em 2018.
O empobrecimento das empresas sob o guarda-chuva do turismo é visível, quando o envelhecimento das instalações e a concentração da atividade em menos profissionais está mal disfarçada em forma de queda de qualidade do serviço e do equipamento ofertados. Alguns destinos mostram ocupações e valores de diárias robustos não pelo aumento da demanda e sim pela redução da oferta.
Infra-estrutura como trem urbano, estações rodoviárias e obras de prevenção, não andam na velocidade necessária, os navios não conseguem trafegar por falta de calado, os carros não conseguem ganhar confiança para ganhar as estradas e as frequências aéreas para destinos do interior, como Canela, Erechim, Santa Cruz do Sul e Bagé não foram retomadas mesmo que as aeronaves fossem minúsculas e o movimento gerado por elas fossem apenas simbólico, mas, com bom efeito psicológico na geração de demanda. Na malha nacional, os voos de e para cidades como Curitiba e Florianópolis não foram retomadas na mesma proporção de antes e a chegada do verão não foi percebida com a não operação de voos do interior para as praias catarinenses, como os que haviam antes entre Passo Fundo e Caxias do Sul para Florianópolis e Navegantes. O Mercosul tornou-se uma miragem com a redução de voos e ônibus de linhas regulares de e para Buenos Aires. A malha rodoviária não retomou sua vitalidade e muitas estações rodoviárias de cidades do interior desapareceram e a estação rodoviária central de Porto Alegre tem mais de metade de suas lojas fechadas definitivamente, onde o atendimento para as linhas interestaduais apresentam qualidade sofrível e improvisada dois anos depois da cheia que desativou aquela estação por mais de meio ano.
O empobrecimento e a concentração de renda aumenta a desigualdade, reduz a qualidade de vida, subtrai a capacidade de consumo e torna definitiva a perda de protagonismo da economia do turismo, com o agravante de que não há no horizonte, alternativa que a substitua.
Uma última Ilusão:
Por terem sido batidos recordes de abertura de novas empresas em 2025, é preciso atentar que isso não representa um surto de empreendedorismo, ou vigor da economia e sim, representa a precarização das relações de trabalho, com a pejotização das funções mais altas e o deslocamento de profissionais qualificados para sub-atividades, com a consequente perda de talentos e de investimentos anteriores em qualificação.

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